Bitches Brew
Miles Davis é uma daquelas figuras que tem o dom se reinventar. Podemos observar diversos saltos na sua carreira, seja na forma de interpretar a música, nas formas de grava-la, ou até mesmo na composição. Em muitos desses saltos, Miles acabou por lançar sementes que influenciariam - ainda que inconscientemente - as gerações seguintes.
A discografia do genial trompetista começa em 1945 e vai até 1986. São 41 anos de carreira de um verdadeiro deus da música. Ao longo dessas quatro decadas, Miles não se ateve a apenas um estilo ou uma forma de tocar e interpretar o jazz. A insatisfação de Davis em ter que seguir os modelos, alguns dos quais ele mesmo fundou, fazia-o sempre estar um passo à frente, sempre além. Foi assim em “Birth of Cool”, quando livrou-se das amarras do bebop, inaugurando o estilo que viria a ser denomidado cool jazz, estilo esse que teve grande aceitação sobretudo na California. Foi assim em “Kind of Blue”, o disco de jazz mais vendido de todos os tempos e, talvez, uma das mais influentes obras da música em todo o mundo. Gravar um disco que seja considerado essencial é uma tarefa muito dificil, gravar dois é coisa de gênio, e gravar o terceiro é tarefa apenas exequível aos deuses da música.
Em 1969, Miles daria o terceiro e talvez mais marcante salto de sua carreira. Naquela época, Miles era um admirador da psicodelía do rock de Jimi Hendrix e Carlos Santana, e do groove dançante do funk de James Brown e Sly and Family Stone. No disco "Spanish Key", temos uma prévia do que essas influencias viriam a representar daí em diante na obra de Davis, porem nada tão intenso quanto em "Bitches Brew". Gravado em apenas 3 dias de agosto em Nova York, com uma equipe de engenheiros de som e músicos consagrados, "Bitches Brew" foi o primeiro disco a fundir o jazz ao rock. Mais uma vez o genial trompetista viria a inaugurar uma nova vertente do jazz, estilo que, mais tarde, veio a ser conhecido como fusion. As gravações do disco apresentaram diversos desafios para os engenheiros de som, pois o trompete de Miles precisava ser amplificado o bastante para não sumir em meio aos intrumentos elétricos, e isso era pratica pouco comum e usual a época. Tudo foi gravado em 69, mas o disco só viria a sair em abril de 1970, com um belissimo trabalho de capa. A sonoridade do disco é sombria, pesada e com timbres que, até então, eram inimagináveis num disco de jazz. Guitarras, baixos, pianos elétricos, percursões hipnóticas e pouco convencionais aliados ao trompete de Miles, em 93 minutos de texturas densas, fazem deste um disco de dificil digestão, porém de grande originalidade. Todas as faixas são de autoria de Miles, com exceção de "Sanctuary" (Wayne Shorter), e "Pharaoh's Dance" (Joe Zawinul).
Ao lançar Bitches Brew, Miles comprovou o talento de se reinventar, de mudar enquanto o mundo também mudava, e essa mudança trouxe, além da bagagem sonora, uma nova tendência em estética de capa dos álbuns, e até na maneira de se vestir. O disco fez muita gente “sair do armário” inaugurando uma onda de trabalhos que fundiam o jazz com outros estilos, principalmente o rock e os ritmos latinos, africanos e caribenhos. Muitos artistas pegaram essa onda, como João Donato, Eumir Deodato, Al Di Meola, Jeff Beck, Herbie Hancock, Stanley Clarke, Féla Kuti, Jacó Pastorius.
Não se grava um disco como esse sozinho, e nesse caso não foi diferente. A lista de músicos que participaram dos três dias de gravação é longa: Don Alias - Percussion, Conga, Drums; Khalil Balakrishna - Sitar; Harvey Brooks - Bass, Electric bass; Ron Carter - Bass; Billy Cobham - Drums, Triangle; Chick Corea - Electric piano; Jack DeJohnette - Drums; Steve Grossman - Soprano saxophone; Herbie Hancock - Electric piano; Dave Holland - Bass, Electric bass; Bennie Maupin - Bass clarinet; John McLaughlin - Guitar; Airto Moreira - Berimbau, Cuíca, Percussion; Bihari Sharma - Tabla, Tamboura; Wayne Shorter - Soprano saxophone; Juma Santos (Jim Riley) - Conga, Shaker; Lenny White - Drums; Larry Young - Organ, Celeste, Electric piano; Joe Zawinul - Electric piano.
De nada adianta minha explanação, se vocês não puderem ouvir o disco. O ideal é que se compre a obra, até porque ganha-se o belíssimo trabalho de capa e a qualidade do compact disk, além de dar créditos a quem é de direito. Para uma pequena degustação seguem abaixo os links para baixar o álbum em mp3.
Tweet



