A VIDA NÃO ESTÁ À VENDA




Interações entre natureza e cultura
Outros animais, ao nascer, têm seu sistema biológico e suas capacidades neurais desenvolvidas plenamente, pois as desenvolveram durante a vida intra-uterina. Nós, seres humanos, precisamos desenvolver nossas potencialidades neurais fora do útero, sendo necessário o cuidado e contato com outros seres humanos no ambiente em que surgimos.

Nascemos conectados e dependentes uns dos outros para podermos nos desenvolver. Somos, junto com outros seres, como um tecido vivo que envolve essa esfera azul que navega pelo universo. A vida não é centrada em um indivíduo; mil tons coloridos tingem as formas que se misturam e se desdobram em novas imagens, composições que a fazem continuar existindo em equilíbrio. Mas acontece que estamos indo contra a nossa natureza - e contra a própria Natureza – quando colocamos a cultura oposta ao que é natural, gerando formas de lidar com o outro e o mundo impregnadas pelo desejo de poder ilimitado. O conhecimento, ao invés de servir a vida, tenta dominá-la.

Criamos mecanismos complexos que nos envolvem e dos quais não conseguimos nos livrar. É como um vício: forjamos necessidades e nos moldamos para nos adaptar a elas, criamos problemas e vendemos soluções oportunas e que geram novas necessidades. Como por exemplo, temos a matriz energética baseada em combustíveis fósseis, sabemos que ela tem arruinado o planeta, mas não conseguimos nos livrar desse mal. Então alguns analistas vêm e levantam a bandeira - já velha e desgastada - da energia atômica como uma solução possível. Aí vem Fukushima e bum... Não era bem isto que se desejava.

Todo sistema econômico mundial é sustentado pela dívida ativa internacional e muitos países estão à beira da falência (ou faliram), mas o show não pode parar. A economia de consumo está baseada no desperdício, obsolescência programada, propaganda gerando demanda com apelo sexual e sentimental. Para que nós e nossos filhos sejamos mais felizes, nos bombardeiam desde a infância com imagens que nos fazem acreditar que a felicidade pode ser comprada em um supermercado de emoções. Enquanto isso:

• Apenas 1,7 bilhões dos atuais 6,3 bilhões de habitantes têm hoje condições de consumir além das necessidades básicas;

• Hoje, 20% da população que moram nos países "ricos" realizam, aproximadamente, 86% do total de compras que são feitas no mundo, enquanto os 20% mais "pobres", um minúsculo 1,3%;

• As crianças são as maiores vítimas da overdose de propagandas, só nos EUA elas são responsáveis pelo gasto de 500 bilhões de dólares por ano;

• O consumo de recursos naturais já supera em 20% ao ano a capacidade de regenerá-los;

• A disponibilidade de água potável passou de 17.000 metros cúbicos per capita em 1950, aos atuais 7.000 metros cúbicos (PNUD);

• No Brasil, somente as famílias que a renda ultrapassa 4.000 reais por mês, têm condições de consumir supérfluos, ou seja, 17 milhões de brasileiros. Por essa conta, 165 milhões estão excluídos da farra consumista;

• Altos níveis de obesidade, dívidas pessoais, menos tempo livre e meio ambiente danificado são sinais de que o consumo excessivo está diminuindo a qualidade de vida das pessoas (Estado do mundo 2004, World Watch Institute);

• Se toda a população mundial consumisse como os norte-americanos nós precisaríamos de 4 planetas Terra.

O sistema econômico mundial baseado no crescimento ilimitado com recursos limitados nos levará a um inegável colapso em breve, muito breve. A única coisa que cresce de forma ilimitada entre sistemas vivos (organismos) é o câncer. Aquecimento global, derretimento das calotas polares (degelo do Pólo Norte previsto para 2012, segundo a NASA), devastação ilimitada das florestas (2/3 da cobertura florestal original não existe mais), milhares de espécies extintas ou em extinção e isso vem progredindo em termos de números ao longo dos anos (WWF); 1 criança morre a cada 5 segundos de fome no mundo (ONU); nos últimos 30 anos o número de pessoas que vivem com menos de US$ 1,00 duplicou nos países menos desenvolvidos (ONU); calcula-se que 815 milhões, em todo o mundo sejam vítimas crônicas de grave subnutrição, das quais a maior parte são mulheres e crianças dos países em vias de desenvolvimento (ONU); a ONU prevê que em 2050 mais de 45% da população mundial não poderá contar com a porção mínima individual de água para necessidades básicas. Estamos doentes ou somos a doença? A terra já dá sinais e sintomas do mal que estamos provocando a ela e conseqüentemente a nós mesmos. Vamos continuar a cultuar esse novo Deus universal que se chama mercado, ou vamos acordar desse sonho maldito onde tudo está à venda - até nossas almas?

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a depressão é a terceira maior causa de mortes no mundo entre adultos, perde só para doenças cardiovasculares e AVC’s (acidente vascular cerebral), doenças estas, que estão relacionadas ao estresse, são males típicos do mundo moderno, típicos das distorções e desigualdades sociais que estão produzindo violência e outros problemas psicossociais, como o uso abusivo de drogas. Não estamos apenas explorando o planeta, estamos sugando nossa própria força vital. Mas quem é que lucra com isso? Faça você mesmo essa pergunta e tente respondê-la.

O medo fez você paralisar, a raiva minou sua potência, há muito ela é minada e nada, nada... quem será o culpado, o estado, a televisão, os Estados Unidos, Deus, de quem é a culpa? Você pergunta, o povo pergunta, ou simplesmente acusa. Aceitamos sempre um bode expiatório para lavar a consciência pesada de toda a sociedade, seja a globalizada ou a localizada. Isso incomoda a todos, pois todos nós somos os verdadeiros responsáveis, todos aceitam diariamente os mecanismos que nos envolvem, nos levando a destruição. Tudo isso pode nos causar mal-estar, mas não nos mobilizamos, assistimos a tudo como espectadores passivos. Cada vez mais fascinados pelo poder, ávidos por consumir o fetiche, pelo prazer e a volúpia do individualismo hedonista, o homem se descobre objeto dele mesmo, e fascinado, se afoga em sua própria imagem. Oh! Pobres narcisos! Assistiremos ao espetáculo trágico de nossa própria destruição e chegaremos cansados do trabalho sem perder um só capítulo do fim dos tempos? Será que estamos tão inebriados assim? Esperaremos a violência e a morte bater à nossa porta para nos conscientizarmos que os caminhos que percorremos não nos trouxeram a terra prometida, mas sim o fim, o limite do inaceitável em um árido deserto. Será que só com isso aprenderemos a conviver uns com os outros, respeitando o direito a vida? Precisamos mudar as relações que temos com os nossos semelhantes e com a natureza. Com isso, me refiro a tudo que envolve a possibilidade da vida e sua diversidade, ou seja, os ecossistemas e o funcionamento dinâmico inter-relacionado dos seres que habitam a Terra e também a tornam habitável. O pensamento voltado para a dominação levará a todos à ruína, se não trabalharmos todos juntos para um novo amanhã, se não mudarmos nossa consciência e percepção do mundo seremos arrastados direto para as profecias dos livros, que falam sobre fim do mundo, os mitos de muitos povos que falam sobre isso e povoam o nosso imaginário. Se não aprendermos que o tempo não é linear e que o fim pode significar um novo começo em outra direção, podemos estar cavando nossa própria vala onde seremos enterrados por nossa própria história. Vamos esperar este dia chegar para sermos sacrificados como cordeiros auto imolados no altar do mercado globalizado?

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O mesmo pensamento que pode destruir a vida, certamente pode possibilitá-la. É como uma ferramenta, e sua finalidade se define pelo seu uso prático. Pode-se usar uma chave de fenda ou um martelo para matar alguém, ou pode-se usá-los para construir lares, esculpir uma estátua. O sentido que se dá aos objetos e às coisas – e também a própria linguagem - serve tanto para destruir quanto para construir. Assim é a cultura e nos moldamos através dela, do que cultivamos para nós mesmos e para o mundo, mas o movimento é sempre de estar em um todo que se recria em um surgimento permanente. Não devemos julgar antes da experiência, seria uma forma de violência, mesmo após a experiência, não devemos julgar jamais, pois ao emitir um julgamento de verdade sobre a vida é o mesmo que impedi-la em seu movimento. Se o tempo é o um rio que corre entre todas as coisas e tudo se modifica o tempo todo por sua influência, o pensamento não deve querer dominar a vida e sim amá-la em suas manifestações variadas, obras de arte, traços, que na tela mais ampla ganham a forma do universo. O artista universal vai compondo a sua arte viva, inspirada e expirada em tons cósmicos. Temos apenas que dizer sim e ser afetado pela criação, sendo tu mesmo parte da inspiração. Compor e decompor, a vida se faz arte e nesta obra todos somos artistas. Mas qual será o toque do seu pincel, seu golpe de cinzel, ou sua nota musical, sua palavra, seu sinal? Qual será a sua ação na composição do todo?

Henrique Glück

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