ABDIAS


Mais um. Se foi mais um.
Minha mãe me contou que, quando ela tinha 24 anos (hoje, eu tenho 25), ela conheceu um Sr. muito simpático, que a adorava: chamava-a de filha, sempre que a via, correpondia com um abraço. E minha mãe se casou com meu pai...

Com um ano de casados, os dois foram juntos ao Centro da Cidade. Lá, encontraram o tal senhor, que agiu da mesma forma, com saudades da jovem. E o meu futuro pai (porque eu só nasci com 3 anos de casamento dos dois) ficou enciumado com o que viu. Desconfiou do que viu e saiu brigado do recinto, deixando minha mãe constrangida. E assim, ela nunca mais viu esse senhor.

Na semana retrasada, terça-feira, 24 de Maio de 2011, faleceu o Sr. Ex-Senador Abdias do Nascimento. Na quinta-feira, 26, estive em seu velório. O cara que adorava a minha mãe. O cara que abriu as portas para todos os direitos que os negros têm hoje e que fez com que portas e janelas estivessem abertas para os artistas negros da atualidade estava ali, diante de mim, dormindo em um sono profundo.

A Cinelândia estava cheia. Não tanto quanto deveria, mas não menos do que se esperava. Estiveram lá muitos artistas famosos e não famosos, e militantes. Além das indispensáveis Zezé Mota e Léa Garcia, Lula, nosso ex-Presidente da República foi se despedir do grande gênio que foi Abdias.

Para muitos presentes lá, percebi que aquele acontecimento teve dois significados: um evento bombado, onde pôde-se reencontrar antigos amigos, e conhecer pessoas novas, influentes em círculos de amizade; ou um momento marcante de despedida, onde um verdadeiro intuito reunia todas aquelas pessoas em um mesmo ambiente.

Vi muitas pessoas sorrindo, outras chorando, e outras ainda segurando o impulso. Muita solidariedade, e um longo sentimento de vazio.

Conversando com a querida Sra. Léa Garcia depois de desejar meus pêsames e solidarizar meus sentimentos (afinal, para quem não sabe, ela foi a primeira esposa de Abdias, e o acompanhou até o último momento), eu fiz a seguinte pergunta: “E agora?” E ela respondeu: “Tem que nascer outro!”

Isso me fez pensar por muitos e muitos minutos, que se extendem a horas: creio que já tenha nascido outro sim. Mas e a força para lutar? E a garra de desafiar todos os mundos em prol de um objetivo? E a vontade de vencer, sabendo que o poder da mídia atual destrói qualquer futuro promissor, se você se apresentar contra o sistema?

Não sei responder às minhas perguntas. É uma questão de posicionamento que vejo em muitos no início, e que acaba se perdendo no meio da estrada, depois que os beneficios se esvaiam diante das barreiras. E assim, caminha a humanidade...

O que sei é que eu tenho absoluta certeza e convicção de que eu não estaria aqui se não fosse pelo Sr. Abdias. E assim, não estariam Zezé, Léa, Ruth, Lázaro, Thais, Ildi etc...

Aos verdadeiros, aos artistas e filósofos e profissionais de todas as profissões, aos negros, aos brancos e amarelos que respeitam o que é integridade, posicionamento, auto-estima e identidade significam, eu digo que me despedi. Conversei mentalmente com aquele corpo que já não me ouvia mais, mas que nunca me viu. Que poderia ter me visto, que poderia ter me criado talvez como um avô emprestado. Eu teria aprendido mais. Mas confesso que fico feliz em viver essa coincidência da vida. Foi surpreendente saber dessa história. E o melhor: pude pedir força para seguir a diante: se eu mantiver viva dentro de mim 10% da motivação que ele tinha, sei que vou ser vitoriosa.

Boa semana a todos! Viva a arte! Viva a revolução!


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