O que você pensa quando se fala em índios? O que é ser índio? Mas nós realmente pensamos nos índios como povo? Que somos originalmente um povo indígena? Nós conhecemos nossa cultura de forma democrática? O que sabemos de poesia, música e dialetos indígenas? Nós sabemos que os índios estão morrendo brutalmente, que os curumins estão desnutridos? Que os índios são tratados como indigentes? Por quê? Ou melhor: o que é ser índio hoje no Brasil?
De acordo com a FUNAI (Fundação Nacional do Índio), são 460 mil pessoas divididas em 225 comunidades no Brasil atualmente. Um número pequeno, perto do que era tida, há séculos atrás, como a nação primeira de nosso território: “Tupinambá”! Era a antiga nação indígena formada por inúmeras tribos de tamoios, aimorés, tabajaras, tupinás e um grupo também chamado de tupinambá, entre outros.
Após séculos de muitos massacres, especulação econômica pelas terras e pau-brasil, a nação indígena foi sacrificada e hoje tomou ares mais românticos e menos sócio-culturais. A esfera política deixa sempre uma reticência. Mas a Constituição Indígena de 1988 teve defensores. Tivemos um membro xavante, o primeiro único Deputado Federal indígena, o cacique Mario Juruna (foto abaixo), que tinha como arco e flecha seu gravador de fita K-7 para registrar as promessas políticas e, assim, não ser mais enganado pela “política do branco”. Morreu esquecido pelo Congresso, pela tribo, vítima de Diabetes em 2002.
A causa indígena deveria ser emblema do Estado que, de acordo com a Constituição determina que “todos somos iguais perante a Lei, independente de cor, raça, credo, religião”. Somos realmente iguais? Visivelmente iguais?
Em 2008 o então presidente Lula, em entrevista na Holanda, afirmou que no Brasil não existe Nação Indígena. O que há, segundo ele, é a soberania do Estado Brasileiro. Fato que o governo Lula nada fez pela causa indígena, escusa toda problemática da época, na disputa territorial entre forças federais, indígenas e arrozeiros na Raposa Serra do Sol, cuja homologação da demarcação em área contínua foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2010.
A afirmação de que não existem nações indígenas fere a nossa integridade nacional. Tira-se do índio o direito à Educação, Moradia, Cidadania e reforça, assim, o preconceito e a negligência. Em abril temos o dia 19 dedicado ao índio. Em solenidade, este ano o senador Pedro Taques defendeu o aprimoramento da legislação do Estatuto Indígena criado em 1976. Segundo o pedetista, nos últimos 22 anos a Constituição não passou de um papel, no que diz respeito à causa indígena.
Atualmente a FUNAI presta um serviço de acervo cultural, porém já não atende às necessidades e problemas emergenciais dos índios. A torcida é para que seja criada uma Secretaria especializada na causa indígena, que inclua os programas ambientais e o terceiro setor da sociedade com o foco na proteção da nação indígena, não apenas como patrimônio cultural, mas como cidadãos e principais beneficiados. A maioria dos ativistas políticos que defendeu a causa indígena acabou esquecida ou adormecida. Conhecer a obra de Darcy Ribeiro e estudos de outros antropólogos contemporâneos é reconhecer e concordar que somos frutos de uma miscigenação e que ela está basicamente ligada à nação indígena.
Como o fortalecimento da causa ambiental pode favorecer a causa indígena? Dois dos problemas recorrentes no Brasil, obviamente, são o desmatamento e a exploração de recursos minerais, que afetam os biomas e, consequentemente, o ambiente das aldeias. Sem a terra que é o principal alicerce da cultura, com a dispersão da fauna e flora, as tribos enfrentam brutal escassez de alimento e território de caça.
Quando há intervenção de culturas urbanas, acontecem outros fenômenos que prejudicam a saúde indígena, tais como: consumo de carne com alto teor de gordura; açúcar, laticínios, glúten (contido em produtos industrializados) e sal. Além da desnutrição, os índios enfrentam doenças crônicas, comuns em não-índios, como: altos níveis de pressão arterial e colesterol, diabetes e até o alcoolismo.
ONGs têm se preocupado com alguns desses problemas e levam às aldeias projetos com equipes de nutricionistas para oferecer alternativas, como educação alimentar e a criação de aves e outros animais para consumo - uma solução menos dramática para gestão sustentável, mas que gera outro impasse. A criação de animais constitui em mudar os costumes tribais de caça e auto-suficiência através da mata.
A informatização das aldeias como uma alternativa simbólica e tola de “inclusão social”, cria uma espécie de dissonância cultural preocupante. Muitos índios que vivem em comunidade, longe de suas aldeias sofrem os mais diversos tipos de preconceito, por toda essa deficiência que se instalou na cultura. Muitos não falam mais as línguas e dialetos originais, e assim morre mais um elemento: os idiomas tribais. Sem o dialeto antigo, o respeito aos ensinamentos e tradições se esvaem. Na medida em que o acesso à informação de fora aumenta, a preservação dos costumes e cultura tem sido refreada cada vez mais. Salvos alguns eventos como o 4 º Festival deMúsica Indígena, (que, inclusive, aconteceu no último fim de semana em Manaus).
É uma batalha interna e externa, imensamente desleal. Muitos índios preferem migrar para os grandes centros ou pequenas cidades nos arredores das aldeias em busca de maior variedade de subsistência. Dos jovens que saem em busca de trabalho, a maioria raramente volta para as aldeias e acaba à margem do trabalho escravo, como por exemplo nas usinas de cana-de-açúcar de Dourados, no Mato Grosso do Sul. As crianças e idosos que permanecem sofrem com a miséria.
De fato não existe uma ação efetiva do Estado pela causa indígena. Um dado alarmante e pouco divulgado por questões de poder, é o genocídio contra índios Guarani-Kaiowa no Mato Grosso. A mortalidade infantil é elevada e as taxas de homicídio também. Desde jovens índios que cometem suicídio vítimas de depressão e alcoolismo, a crianças mortas por desnutrição. Há altos índices de desnutrição ainda, nas aldeias do Acre. A especulação da agricultura de soja está propiciando esta situação grave, onde o Estado não oferece proteção às aldeias e a grande mídia não divulga.
Além de diversos programas e documentários na mídia a respeito da cultura, existem revistas, sites e blogs especializados na temática indígena do Brasil, passo importante para que essas e outras questões sejam iluminadas na esfera social e para que os próprios índios tenham recursos para fazer bom uso dos meios de comunicação e novas tecnologias. Hoje o índio é uma minoria cada vez mais esmagada, mas sua resistência é inegável.
A causa indígena é um assunto tão antigo quanto complexo e tornou-se um dilema na cultura nacional. Devemos revisitar e cobrar medidas urgentes do Poder Público sempre que possível, não somente em datas comemorativas. Índio não é só folclore. É nosso povo da mata. E também é nosso dever ajudar e colaborar, para promover o respeito, bom senso e equilíbrio na solução desses problemas.
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