Há necessidade de mudanças
Os estaduais acabaram, os torneios eliminatórios, tanto Copa do Brasil como Libertadores estão em seus momentos finais e a janela de transferências continua trabalhando para informar ao torcedor com quem o seu clube está se reforçando. Todos estes fatores apontam para um período que deveria ser único para o torcedor tupiniquim: o início do Campeonato Brasileiro.
O deveria da frase acima é bastante sugestivo e realmente tem algo a dizer. O campeonato mais importante do nosso país vai começar com times remendados, já, praticamente, no meio da temporada, e com equipes que a gente sabe que irão se desgastar mais do que o necessário até a metade do torneio.
Neste texto, a intenção é fazer uma crítica ao sistema que determina o calendário do jeito que ele é feito no nosso país. E não aceito críticas dizendo que sou europeu, pois a minha intenção não é fazer com que sigamos as datas por eles usadas; apenas esperamos por um campeonato que valorize o atleta, o torcedor, a televisão e os patrocinadores de maneiras iguais.
O calendário dos torneios nacionais e sulamericanos não têm a necessidade de seguir o dos europeus. Nosso clima é diferente, tradicionalmente temos férias em períodos distintos e estamos acostumados a seguir um cronograma que contempla o ano todo em seu pleno período.
Entretanto, isso não impede que mudanças que se julguem necessárias não possam ser feitas, para que melhoremos e otimizemos os ganhos com o negócio futebol; e, claro, a possibilidade de poder sociabilizar estes ganhos.
Já é passada a hora de a CBF, como entidade poderosa que é, pressionar a Conmebol para que o período de disputa da Libertadores seja estendido para um ano inteiro, e não pressionado entre as datas do primeiro semestre. A Copa Sulamericana é disputada na segunda metade do ano, mas excluindo-se a possibilidade de se disputar as duas competições concomitantemente, teríamos bastante futebol sem sobrecarregar os elencos das equipes e o bolso do torcedor.
Além disso, o Brasil é um dos poucos países do mundo em que a equipe que disputa a principal competição continental, não joga a Taça nacional. Outro absurdo que tem que ser revisto no confuso calendário que vigora. Para ser valorizada enquanto título, e não apenas como caminho para se chegar à Libertadores, a Copa do Brasil tem que ser repaginada e valorizada, para que o desejo de ganhá-la baste pelo título em si que representa.
Os Estaduais concentram um tempo muito grande dos maiores clubes brasileiros, daqueles que jogam as maiores competições. É inadmissível que um torneio regional comece em meados de janeiro e dure cerca de quatro meses, ocupando um tempo precioso das equipes e prejudicando a preparação de pré-temporada. Tal prejuízo é verificado na queda de rendimento da maioria das equipes que estão na ponta do Brasileirão em seu segundo turno. O desgaste sofrido para atingir tal marca minou boa parte de suas forças, o que, aliado à má preparação, evidencia o quanto de prejuízo a desorganização de datas causa ao espetáculo.
Não falamos, aqui, de abolir os Estaduais, apesar de não ser uma idéia totalmente descabida. Para preservar a nostalgia e a tradição, para aqueles que a valorizam, encurtar o torneio regional seria uma boa opção, além de encaixar os grandes clubes, e o que vão iniciar competições nacionais, nas suas fases finais, para haver tempo de se fazer uma preparação física adequada e proporcional ao tamanho da nossa temporada regular.
As mudanças têm que ser estruturais, e não pontuais, como vem propondo a CBF. Não basta sinalizar para a inversão do calendário para equipararmos ao dos europeus, sem que se resolva o problema do inchaço dos campeonatos estaduais e dá má distribuição dos torneios continentais. Também não são suficientes medidas paliativas para se modificar janelas de transferências e evitar a saída de jogadores e proporcionar a entrada de outros. Sem reestruturação na vida econômica dos clubes, sem política voltada ao esporte de alto nível e com a instituição máxima do futebol nacional não valorizando os torneios nacionais, sempre haverá algo pendente.
O Brasil ainda produz muitos jogadores, renova a safra de atletas com considerável freqüência, além de ter potencial de atrair muito público aos estádios. Entretanto, analisando-se friamente, nossa medida de espectadores nos campos é a mesma que a da segunda divisão inglesa, ou seja, uma vergonha para quem se diz o país do futebol. E não podemos colocar a culpa apenas na economia, pois esse é um problema de atração dos estádios. O investimento em melhorias beneficiaria muito o esporte no país, e as conseqüências seriam sentidas por todos.

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