CRÍTICA: MEIA-NOITE EM PARIS


Em busca de inspiração
"Meia-noite em Paris" (EUA, Espanha 2011) escrito e dirigido por Woody Allen trabalha com a superposição da realidade. O filme adquire o tom de fábula surrealista arraigada na ideia original.

E decepciona como obra cinematográfica e, seu tom de decepção é maior ainda quando se trata do novo trabalho de Allen, um cineasta que ganhou fama com produções notáveis desde a década de 1970, em longas-metragens como "Noivo neurótico, noiva nervosa", de 1977. Nos anos 1980, o seu sucesso continuou em produções como "A rosa púrpura do Cairo", de 1985. Na década de 1990, atingiu a maturidade em produções como "Poderosa Afrodite", de 1995 e "Desconstruindo Harry", de 1997. Neste período criou um gênero cinematográfico: filme de Woody Allen, quando o humor ácido e ferino sobre diversos temas o conduziu ao panteão dos grandes autores. Sua filmografia prolífica mais recente, quando deixou de atuar, inclui "Match Point", de 2005 e "O sonho de Cassandra", de 2007. Duas obras-primas de genética mais densa e em outros gêneros: o drama e o suspense. O brilhantismo dessas produções mostraram que Allen pode ser algo diferente do conhecido Allen de suas comédias intelectuais e neurastênicas. Em 2008, o cineasta flertou com a comédia menos filosófica e mais sensual em "Vicky Cristina Barcelona", com bom desempenho. Seus dois projetos anteriores a esse mostram um Allen em forma no filosófico "Tudo pode dar certo", de 2009 e em um outro filme, como este, decepcionante na temática e sem as piadas que o tornaram célebre: "Você vai conhecer o homem dos seus sonhos", de 2010. Quase sempre restrito ao circuito exibidor de arte no Brasil, com algumas excessões como o já citado "Descontruindo Harry", "Meia-noite em Paris" ganha o mercado comercial depois de fazer sucesso no tradicional Festival de Cannes. O filme conta com a participação da esposa do Presidente Francês, Nicolas Sarkozy, a bonita modelo Carla Bruni.

O maior problema de "Midnight in Paris" (o título original) não está nas tomadas cênicas e em seus planos-sequência (Allen sabe filmar), o projeto passa a ser decepcionante devido ao texto do cineasta-escritor. O mote sobre um homem que viaja no tempo (mais precisamente à Paris dos anos 1920) não chega a ser original e tampouco atraente, embora algumas discussões filosóficas estejam lá e o humor, embora mais comedido, também. Contudo, a plausibilidade fica em segundo plano, mesmo sendo um filme surrealista. Vejamos: O cada vez mais maduro e equilibrado em suas performances cênicas recentes, Owen Wilson (vivendo um escritor e roteirista nostálgico), não consegue pedir uma informação para retornar ao seu hotel no idioma francês ainda no início da trama para depois entender tudo que um desenhista, de origem francesa, conceituado da primeira metade do século passado pronuncia nesta língua. Ainda acaba com uma conhecida namoradeira de intelectuais (interpretada por Marion Cotillard) ainda mais longe no tempo, em 1890. O que sobra de beleza na estética falta em conteúdo narrativo. Mesmo o realizador dominando bem vários campos da cultura, como a literatura, a pintura e o cinema, além das belas citações referenciais e ao classicismo que presta às Artes, "Meia-noite em Paris" pode ser considerado como um filme demasiadamente intelectual e se perde ao fazer tributos em excesso e procurar, em diversas cenas do longa-metragem, enaltecer em demasia a 'Cidade das Luzes' como é conhecida a respeitável e notória capital francesa.

"Meia-noite em Paris" trabalha com a busca da inspiração para escrever que seu personagem central (interpretado por Owen Wilson) passa a buscar na sua passagem como turista por Paris. O longa-metragem pode ser interpretado como uma Ode à inocência e à nostalgia. E ainda como bonita celebração à antiga Capital Cultural do mundo, ainda hoje com riquezas artísticas expressivas. Com excessão de alguns bons diálogos e da interpretação correta de Wilson e boas contribuições dos coadjuvantes como Rachel McAdams (interpretando a noiva infiel do personagem central) e, ainda, de uma pitada de romantismo e humor, além do sempre habitual domínio cênico de Woody Allen e sua leveza narrativa, a película peca pelo excesso narrativo ao entupir a trama com auto-referências e homenagens, em imagens e diálogos, e com um mote batido que trata de um homem que viaja no tempo, podendo mesmo alterar o presente, fórmula fílmica comum e já bastante utilizada no cinema. "Meia-noite em Paris" é uma overdose da capacidade criativa de seu autor. E esse exagero acaba conduzindo a obra, paradoxalmente, à sua imperfeição.

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