Intolerância ao diferente
Ao contrário dos animais, o homem é, apenas parcialmente, um ser biológico. Sua existência humana e social só se realiza através de uma imersão no simbólico, isto é, num conjunto de códigos que permite que se comunique e se relacione com outros e com o universo que o circunda – a cultura é assim, a própria condição de possibilidade do humano.
Somos seres em relação e não entidades isoladas. Na rede de relações que enredam os corpos, as marcas do cultural podem operar de modo a fixar identidades, modelos e padrões pouco variáveis que geram tensões sociais e subjetivas, levando o sistema a se organizar novamente ou a entrar em colapso quando não conseguimos lidar com a nova situação em forma de problema. Quando negamos a diferença, negamos a vida e sua capacidade de se multiplicar em diversidade conectiva. A vida se liga a diferença e dela depende para efetuar sua façanha de animar os corpos e a matéria que tendem a mortal inércia do mesmo. A cultura deve afirmar a vida e a natureza, não negá-las, aniquilado a diversidade tão necessária como direito a existência livre. A violência relacionada ao poder e a vontade de se apoderar do outro pela força exercida sobre ele são reduções da vida. Portanto, todo ato violento limita a teia da vida e é sentido por todos que estão empenhados em fazê-la continuar.
No lugar dos instintos estão as instituições e toda a complexidade que envolve a vida em conjunto. No lugar das necessidades reais, a produção de necessidades e a elaboração de códigos de acesso que garantem ou não a sobrevivência subjetiva do sujeito na contemporaneidade. Pode não ser uma tarefa muito fácil como se acredita, viver em uma sociedade complexa ocidental sem ter acesso ao consumo, ou sem compartilhar signos de beleza e forma, ter a racionalidade cotidiana que nos é exigida no contexto das grandes cidades, igualmente a capacidade de absorver grandes quantidades de informações. Nem todos são capazes de alcançar isso sem submeter o corpo a níveis elevados de estresse, ansiedade e medo. São marcas de um sistema que através do corpo e de técnicas corporais imprimem de modo sutil, ou não, uma identidade, um ritmo, um território subjetivo, em outras palavras: a consciência, o ego, instituído como referência constitutiva do ser. É desse modo limitado do ser que se exige adaptar às exigências de um sistema que reproduz a si mesmo nas micro e macro relações conduzindo gestos, palavras e atitudes a repetição dos efeitos do consumo e necessidades do ego. Apenas fazendo uma pobre leitura de um mundo na primeira pessoa como forma de conceber a experiência da realidade, abandonando os elementos inconscientes presentes nos atos e nas condutas, simplesmente julgamos sem compreender, enganados pela aparência cultivamos a violência de maneira velada quando não compreendemos um fato em sua totalidade e operamos de maneira arbitrária por força do hábito de julgar antes. São esses, entre outros elementos restritivos, que reduzem a sociedade criando mecanismos de exclusão da diferença e definindo formas pelas quais aprendemos a realidade e impomos sobre ele nossos sentidos de maneira imperativa. Ser membro, sem se enquadrar nesses padrões exigentes, dessa comunidade cada vez mais exclusiva, pode ser uma tarefa dura e solitária, pois o indivíduo em tais condições está completamente isolado, sem apoio de uma rede social que o acolha, restando-lhe a loucura, a violência, o sofrimento, a clausura ou a morte. Reduzido a condição de excluído o indivíduo pode ser o elemento descartável, um dejeto social. Invisibilidade, privação e esvaziamento afetivo, são violências sociais que, certamente, são marcadas nos corpos individualizados e na memória social moldando comportamentos e pensamentos pela competição exagerada.
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| Cena do filme "A Laranja Mecânica, que fala sobre aceitação. |
Como exemplo, podemos entender a escola como formadora de indivíduos que partilham de referências comuns, segundo os interesses daquela sociedade, e o que tem relevância para todos. Então nos resta pensar, que interesses comuns seriam esses que são julgados como parte do currículo e razão que justifica a escola? Outra pergunta que pode ser feita é, será que esse modelo “universal” não acaba deixando muita gente de fora? Será que a instituição Educação está preparada para lidar com as diferenças? – Possivelmente não. O que vemos ainda é o mesmo modelo aplicado há séculos. As instituições padronizam e organizam as relações, mas precisamos fazer com que elas se transformem e não se cristalizem diante da mudança e das diferenças. É cada vez mais comum a violência nas instituições que vivem uma crise diante das transformações sociais. Podemos ver a violência agir e ser tolerada, muitas vezes, na família, na escola, nas empresas e nas instituições religiosas e em toda a sociedade. Tais instituições deveriam servir para favorecer o convívio e a coletividade, mediando conflitos e tensões entre as diferenças, privilegiando o espaço simbólico das trocas. Mas o que ocorre é que essas instituições estão em colapso e acabam por evidenciar ainda mais os conflitos e as pequenas diferenças. Ao estabelecer um padrão de comportamento útil e formalizar modelos invariáveis, essas instituições exercem sobre os indivíduos um efeito de controle e exclusão. A violência surge sempre das relações desiguais onde não se pode conceber a diferença, mas sim a submissão dessa ao domínio do identificável, por isso, as singularidades são marcadas e rotuladas, para perderem seu efeito perturbador e para que com isso sejam controladas em seus limites. As instituições contemporâneas estão preparadas para lidar com as singularidades? Estamos preparados para uma sociedade não-violenta? Doença ou vício a violência deve ser compreendida em sua totalidade para que possamos combater o fogo sem utilizarmos o próprio fogo.A preocupação com a administração da vida de maneira individual parece distanciar todos de uma reflexão ética – que é a maneira de incluir o outro na relação. A violência da racionalidade instrumental e a relevância do aspecto aparente e superficial do ego são elementos que fazem parte de uma lógica que sistematicamente nega as diferenças e reduz o social, afrouxando os laços coletivos, privilegiando os interesses individuais e imagem. O resultado é um micro fascismo implodindo a sociedade, substituindo o simbólico pelo fetiche do consumo e do gozo máximo e ininterrupto, exigências narcisistas de uma sociedade que privilegia os sentidos em detrimento das relações.
O estranhamento que nos causa a simples presença da diferença é a reação desencadeada por um não reconhecimento do semelhante como capaz e no direito de ser outro. Reconhecer que a diferença está presente em todas as coisas e considerar sua legitimidade, bem como seu direito à existência livre é o primeiro passo para lidarmos melhor com a convivência, compartilhando o mesmo planeta e dos mesmos espaços.
A nossa avidez por poder e dominação nos levou a conceber uma estrutura e organização social voltada para a anulação da diferença, já que toda a cultura ocidental se apóia nas dicotomias entre o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, o belo e o feio, bárbaros e civilizados etc. O medo daquilo que nos causa espanto por não compreendermos muito bem o que, nos é apresentado como ameaçador, gera uma possível reação violenta, uma tentativa de se apoderar pela força daquilo que escapa ao entendimento.
A agressividade é diferente da violência, a primeira é adaptativa e precisamos dela para viver, para criar, operar e transformar o mundo ao nosso redor, pois a agressividade é um investimento de força aplicada no mundo externo para se obter o que se deseja ou transformar o que se ambiciona. Já a violência é uma atitude dirigida ao mundo externo que visa à destruição, anulação de algo ou alguém. Por exemplo: a natureza e o universo podem ser bem agressivos, mas jamais são violentos. A violência é uma característica humana e social. Para todos os efeitos, guerra, fome, tortura, assassinato, preconceito, violação dos direitos, ações contra a natureza e os animais, a violência se manifesta de várias maneiras. Em todos os casos ela está relacionada ao poder e a força exercida sobre o outro. A violência interfere significativamente no tecido social, esgarçando toda a malha de relações que compõem a sociedade. Pode se dizer que a violência é anti-social, gera medo, desconfiança e, certamente mais violência. Se seguíssemos as pistas e conexões da violência, veríamos que ela está sempre conectada a outra, quase nunca é uma ação isolada. O ressentimento, a repetição violenta é veneno social, e isso aponta para uma tendência destrutiva de uma força que poderia ser criativa, mas não encontra meios disponíveis para alterar sua realidade, ou se inserir nela de maneira construtiva e espontânea. Estados, famílias, grupos ou instituições violentas, certamente, geram seres igualmente violentos. O tema é bem redundante, pois ao estudarmos a causa de um ato violento, encontramos relações e ambientes violentos condensados num caldo cultural inevitavelmente explosivo. O fechamento do ser para alteridade, ou seja, o não reconhecimento e a intolerância com outro são provavelmente o calcanhar de aquiles da humanidade. Mas poderíamos criar agora uma sociedade menos violenta ou não-violenta se compreendêssemos antes de julgar, se respeitássemos antes de negar o mesmo direito à existência livre que temos e devemos reconhecer no outro.
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