Idílio na floresta
"A garota da capa vermelha" (EUA, 2011) dirigido por Catherine Hardwicke ("Crepúsculo") faz uma revisão sombria e mais assustadora para o conto "Chapeuzinho vermelho" dos irmãos Grimm, publicado no século XIX, com lindos cenários bucólicos que embalam algumas de suas tomadas de câmera. O filme, ambientado na idade média, mitifica o lobo do texto original transformando-o em um lobisomem, que é um dos habitantes do vilarejo onde a ação transcorre.

O suspense começa quando a criatura ataca a irmã de Valerie, a personagem que dá título ao filme, interpretada por Amanda Seyfried. Em plena lua cheia, os moradores resolvem saciar a sua sede de vingança caçando o que, à princípio, pensam ser um lobo comum. Até a explanação da existência do ser humano que se transforma em uma fera maligna feita pelo personagem padre de Gary Oldman, com seus métodos pouco ortodoxos. O auge da narrativa acontece quando a desconfiança quanto à identidade humana do animal passa a ser de todos em relação a todos. A verdadeira personalidade de cada personagem vem à tona e um segredo na família de Valerie/Seyfried sobre paternidade é revelado, sendo peça-chave na resolução do mistério que cerca a comunidade.
Hardwicke consegue um bom domínio cênico na condução da narrativa. A trama desenvolve bem, havendo uma mistura acertada entre o suspense e o romance (gêneros), entre o medo (dos habitantes do vilarejo) e o idílio entre dois jovens (Seyfried e Shiloh Fernandez), e entre o rude e o delicado. A diretora casa bem várias imagens com música contemporânea, em planos-sequência bem elaborados. E, assim, deixa as regras de lado e concebe um filme pop e de ampla aceitação comercial. O roteiro de David Johnson, mesmo não sendo perfeito, facilita o trabalho da diretora que, na tentativa de aprofundar o mistério, injeta, equivocamente, pistas falsas sobre a identificação e culpabilidade da criatura. Contudo, surpreende com a revelação do culpado, em seu clímax. Em alguns momentos, "A garota da capa vermelha" possui falhas, em sua estrutura narrativa, para encaixar os vários elementos contidos no roteiro, apresentando certa distorção quanto à coerência, com sua solução final evidenciando certa fragilidade quanto aos motivos dos atos de seu antagonista. Ainda assim, o trabalho da dupla (Johnson e Hardwicke) é positivo. O destaque entre as atuações fica por conta do veterano ator Gary Oldman, em meio às diversas atuações fracas, algumas desastradas.
O filme, feérico e instigante, trabalha com o contraste entre a serenidade humana em um ambiente calmo (apesar do conhecimento do perigo que os ronda) e o pavor e desespero que a quebra da rotina causa em seus personagens. E, ainda, com a ideologia romântica comovente que dois jovens possuem ao manterem inabalável um namoro, baseado em sentimentos sinceros e inocentes que nutrem entre si, originado na infância. E que enche os enamorados de coragem e determinação para enfrentar intempéries, diminuindo o sofrimento em momentos de incerteza.
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