AS VANTAGENS E ARMADILHAS DO "VINTAGE"


Algumas dicas de um usuário.
Reza a lenda que o termo "vintage" surgiu na produção de vinhos, para definir a data da colheita. 'Vint' (do vinho) e 'age' (idade). Mais tarde, o termo foi atribuído à moda retrógrada, uma espécie de recuperação dos estilos entre as décadas de 1920 e de 1960. Nos dias de hoje, usamos essa palavra para designar qualquer coisa fabricada há muitos anos, sejam automóveis, eletrodomésticos, móveis, etc. Os músicos aplicam igualmente esse termo aos instrumentos e equipamentos fabricados da década de 1960 para trás.

Apesar de estarmos à beira do mistério do ano de 2012, frente a inúmeros avanços tecnológicos, nota-se hoje uma crescente busca por equipamentos e instrumentos antigos, por diversos motivos e finalidades. São muitas as vantagens e desvantagens dessa relação, portanto, vale uma atenção na hora da escolha.
Há quem colecione guitarras e as pendure na parede, mas como não é esse o assunto, a primeira coisa a ser analisada é a questão da 'funcionalidade'.

É inegável o quanto um instrumento feito de madeira, como a guitarra, melhore em função da ação do tempo e do uso, permitindo-nos fazer até uma analogia ao próprio vinho e ao whiskey, em relação ao envelhecimento gerando qualidade. Uns dizem que a madeira vai secando e, por isso, ficando cada vez mais soante. O que eu posso dizer é que, de fato, é impressionante o resultado. Mas esse processo quase metamórfico deve-se, principalmente, à alta qualidade da madeira e às mãos talentosas do construtor. E, visto que o aspecto negativo que algumas guitarras antigas (de madeira e construção boas) geralmente apresentam são os acessórios como tarraxas, trastos, captadores, e pontes (pela justa falta de tecnologia e recursos), temos aí duas questões: pode ser uma grande cilada adquirir um instrumento considerando somente sua idade e sua estética, quase sempre encantadora. Porém, no caso de se ter certeza sobre a qualidade da madeira, vale a pena adquirir o instrumento e investir em acessórios melhores, ganha-se muito.

Existe também o valor atribuído à originalidade do instrumento, e suas condições de conservação. Isso faz uma guitarra de cinquenta anos valer o dobro, ou o triplo de uma guitarra do mesmo modelo feita hoje, "zero Km". Portanto, diante de um instrumento com essas características, precisamos estar muito bem decididos. Eu mesmo posso compartilhar uma experiência aqui: sempre fui fã declarado dos instrumentos e pedais antigos, mas muito criterioso quanto à funcionalidade, e adequação às minhas finalidades. Há um tempo adquiri uma semi-acústica fabricada no final dos anos 60 em São Paulo, um instrumento maravilhoso, porém muito limitado por seus acessórios de tecnologia tosca - com exceção de seus interessantes captadores. Ninguém acreditaria se eu dissesse o que já me ofereceram nela, enquanto a mantive completamente original.
Confesso que tremi na base inúmeras vezes, mas o coração falou mais alto. O problema é que ela era original como um fusca de exposição, mas não supria minhas necessidades na hora de trabalhar, pois as tarraxas não seguravam a afinação nem de longe, e os trastos estavam gastos como as escadas de um prédio antigo, e eram bem fracos. Trasto e tarraxa são dois dos acessórios mais importantes no funcionamento de uma guitarra, e eu precisava de uma para tocar, não para expor num museu. Troquei tudo sem pensar duas vezes, e não me arrependi. Posso ter perdido a condição de original, mas ganhei uma guitarra "nova" - e muito interessante - para usar.

Apesar de curtir muito o esquema "guitarra + amplificador valvulado" e mais nada, sou também um amante dos pedais e suas infinitas possibilidades em nossas mãos e pés. E, falando dos antigos, o critério de funcionalidade não é diferente. De nada interessa um pedal antigo de baixa qualidade, ou em má conservação, e é comum vermos muita gente cair nessa armadilha. Deixando de lado esses casos, e considerando que várias são as predileções, é preciso saber bem aonde se quer chegar com cada tipo de equipamento, caso contrário pode-se gastar muito dinheiro e paciência por nada. É preciso estar a par de todas as limitações que cada pedal apresenta, e do quanto isso pode ser um atraso na busca pela sonoridade desejada. 

Também tenho um caso a compartilhar sobre isso, foi há muitos anos, quando eu achei num anúncio de jornal uma oferta incrível por um pedal de chorus fabricado no Japão no início dos anos 80 (nem é tão antigo), e não resisti. Fiquei muito satisfeito com o som bonito que ele tem, fiz inúmeras gravações com ele, mas quando fui ligá-lo junto dos outros no set-up, tive uma grande frustração: ele apresentou uma queda de sinal absurda e inexplicável. Era uma sensação de que alguém abaixava um pouquinho o botão de volume no momento em que eu ligava o pedal, e de que alguém aumentava de volta o volume quando eu desligava. Isso é um problema sem solução quando se trata de tocar ao vivo, e acabei por substituí-lo por outro mais moderno, ou seja, tive de gastar mais dinheiro em outro pedal de mesmo efeito. Continuo gravando com o antigo, mas não o levo mais para o palco.

Outro caso interessante é o do wah-wah. Fiz questão de procurar um daquele que quase todos vimos nos pés de Jimi Hendrix, enquanto este beijava o céu em Woodstock. Quanto testei, me certifiquei de que ele era muito bom e perfeito para o que eu precisava, mas fiquei surpreso quando descobri que ele não possuía entrada para fonte de alimentação. Isto acabou sendo uma desvantagem, visto que as baterias de 9V duram pouco e não são baratas, tornando a relação diária com o pedal um pouco cansativa e custosa. A solução que encontrei foi levá-lo para que um técnico adaptasse a entrada para fontes. Gastei mais dinheiro com um pedal que já não foi barato, mas valeu. Apesar do chorus e do wha-wha terem oferecido essas desvantagens, um phaser da década de 70 é absoluto em meu set-up para qualquer situação, e não o troco por nenhum outro.

Vale dizer também que a escolha do modelo de guitarra e a característica de seus captadores são decisivos no resultado sonoro de qualquer pedal, antigo ou novo. A textura de som sempre será resultante da combinação do tipo de guitarra, pedais e amplificadores usados. Não adianta buscar uma textura mais "blues" com um pedal e um amplificador antigos, se a guitarra em uso possui captadores de características diferentes, como os humbuckers de altíssimo ganho de uma Jackson, por exemplo. Assim como, de maneira inversamente proporcional, não se teria o resultado esperado tocando heavy metal com captadores de uma Telecaster, mesmo com pedais de distorção pesada e bons amplificadores. Cada caso é um caso, e tudo precisa ser levado em conta, vantagens e desvantagens. 

De toda forma, experimentar sempre é lucro, tudo o que conhecemos hoje partiu de experiências. Não se prenda ao que é quase unanimidade, pois cada um tem uma maneira de tocar, de sentir, de se expressar, e de achar o seu som ideal entre os instrumentos, pedais e amplificadores que estão à disposição no mercado. E, na minha opinião, mais importante que tudo isso é saber que os equipamentos significam apenas 30% de todo o resultado. Os outros 70% estão dentro da cabeça e do coração, na musicalidade da pessoa e no aperfeiçoamento de sua técnica através da prática. 'Vintage' ou moderno, é tudo conosco no fim das contas.

Sem pressa com esse imenso cardápio. Bom apetite!

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